O que a ciência diz · 5 min de leitura · Atualizado em 20 de outubro de 2026
Quer chegar aos 100? O que copiar das centenárias da Sardenha
Sempre que aparece a notícia de um vilarejo onde muita gente passa dos 100 anos, a pergunta vem rápido: o que eles fazem que a gente não faz? Para quem cuida dos pais, vem outra, mais baixinha: estou deixando de fazer alguma coisa?
O caso da vez é Bolotana, uma cidadezinha de montanha na Sardenha, ilha italiana, onde as mulheres idosas vivem bem mais do que a média. Vale olhar com calma o que o estudo mostra, o que ainda não mostra e o que cabe na rotina de uma família brasileira.
O que é uma "zona azul"
É o apelido de regiões com uma parcela incomum de pessoas muito idosas. O termo nasceu na própria Sardenha, num estudo de 2004 na revista Experimental Gerontology, do demógrafo Michel Poulain e do médico Giovanni Mario Pes, que encontraram uma área montanhosa da ilha com muitos centenários, sobretudo homens. Depois, o escritor americano Dan Buettner popularizou a ideia e incluiu lugares como Okinawa, no Japão, e Nicoya, na Costa Rica.
O que o estudo de Bolotana encontrou
Em outubro de 2026, a revista Frontiers in Aging publicou um estudo liderado por Pes, da Universidade de Sassari, com coautores americanos como o epidemiologista S. Jay Olshansky e o próprio Buettner. A equipe analisou as mortes de moradores de Bolotana, que tem pouco menos de 2.300 habitantes, entre 2021 e 2025.
Pelas taxas de mortalidade desse período, de cada 100 mulheres que chegam aos 70 anos, cerca de 14 chegariam aos 100 (13,83%). Na Itália, seriam 3 ou 4 (3,54%). Aos 70, uma mulher de Bolotana teria em média mais 20,85 anos pela frente, contra 18,06 na média italiana. Entre as populações de alta longevidade usadas na comparação, só as mulheres de Hong Kong se saíram melhor. Os homens também foram bem (4,92% contra 1,41%), mas o destaque é feminino, ao contrário da zona azul original.
Dá para confiar nas idades?
É a pergunta certa. Em 2019, o demógrafo Saul Newman divulgou um pré-print (estudo ainda não revisado por outros cientistas), atualizado depois, defendendo que muitos recordes de idade extrema vêm de registros falhos ou de fraude para manter aposentadoria, e questionou as zonas azuis, Sardenha incluída. Em 2024, já na University College London, o trabalho ganhou o Ig Nobel, prêmio bem-humorado para pesquisas que fazem rir e depois pensar. O debate segue aberto.
Em Bolotana, os autores dizem que todos os centenários tinham certidão de nascimento no registro civil e que 97% das mortes de centenários foram conferidas também nos livros da paróquia. Isso reduz muito o risco de idade errada.
O que o estudo ainda não diz
É um estudo demográfico: conta quem viveu quanto, mas não investigou o que essas mulheres comem, quanto andam ou com quem moram. Mostra um padrão, não uma causa. A cidade é pequena e houve poucas mortes, então a estimativa balança: a margem dos 13,83% vai de cerca de 7% a 24%. E o resultado muda com o período. Entre 2015 e 2019, numa análise feita com método um pouco diferente, a estimativa foi de 1,46% para as mulheres, e os anos de 2021 a 2025 incluem a pandemia.
Por isso, os próprios autores chamam Bolotana de "candidata" e dizem que ainda não dá para classificá-la como zona azul. E Buettner, vale lembrar, é fundador da Blue Zones, empresa que explora comercialmente a marca.
O que dá para copiar
Genética, história de vida e sorte pesam muito. Nenhum hábito garante os 100 anos, e ninguém precisa se culpar por isso. Dá para apostar em costumes com boa evidência própria, em estudos com milhares de pessoas, que também aparecem nesses vilarejos.
- Caminhar no dia a dia. Sair de quase nada para alguns milhares de passos já se associa a menos risco de doença. Veja quantos passos por dia fazem diferença depois dos 60.
- Ter com quem conversar. A Organização Mundial da Saúde liga a solidão a mais de 871 mil mortes por ano no mundo e estima que até 1 em cada 3 idosos vive isolado. Entenda como a vida social protege a memória.
- Comer comida de verdade. O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, tem uma regra de ouro: preferir alimentos in natura ou minimamente processados e preparações caseiras aos ultraprocessados. E sugere comer em companhia.
Por onde começar esta semana
- Pergunte ao seu pai ou à sua mãe quantas vezes saiu a pé nos últimos dias, sem tom de cobrança.
- Proponha uma caminhada curta juntos: padaria, feira, igreja.
- Combine com os irmãos uma escala para que alguém ligue todos os dias.
- Troque um ultraprocessado da despensa por uma opção caseira de que eles gostem.
- Deixe com eles o contato de um vizinho de confiança.
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Na Lumya, a meta "Quero manter vida social ativa" e o registro de contato social mostram se a semana do seu pai foi mais solitária. As refeições podem ser registradas com foto, e o agente Nutri devolve uma leitura ao fim do dia. São 30 dias grátis, sem cartão de crédito.
Bolotana é uma história bonita e ainda incompleta. Enquanto os números não se confirmam, o que serve para nós não depende de chegar aos 100: uma volta a pé até a padaria, um almoço sem pressa à mesa, alguém que liga todo dia.
Fontes consultadas
- A new blue zone? Exceptional late-life survival in Bolotana, Sardinia (Frontiers in Aging, 2026) — Pes GM, Austad SN, Buettner D, Pedde S, Romerio V, Beltrán-Sánchez H, Olshansky SJ — Universidade de Sassari e outras
- Identification of a geographic area characterized by extreme longevity in the Sardinia island: the AKEA study (Experimental Gerontology, 2004) — Poulain M, Pes GM e outros — via PubMed (NIH)
- Supercentenarian and remarkable age records exhibit patterns indicative of clerical errors and pension fraud (pré-print, 1ª versão em 2019) — Newman SJ — bioRxiv
- UCL demographer's work debunking 'blue zone' regions of exceptional lifespans wins Ig Nobel Prize (2024) — University College London (UCL)
- Social connection linked to improved health and reduced risk of early death (2025) — Organização Mundial da Saúde (OMS)
- Guia Alimentar para a População Brasileira (2ª edição) — Ministério da Saúde
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de médicos e outros profissionais de saúde. Em uma emergência, ligue 192 (SAMU).