Trabalho e cuidado · 6 min de leitura · Atualizado em 26 de outubro de 2026
Cuidar da mãe e trabalhar ao mesmo tempo: como dar conta
Não dá para fazer tudo sozinha: para cuidar da mãe e trabalhar ao mesmo tempo, divida as tarefas com a família, contrate ajuda para as horas em que você está no trabalho, converse com a empresa sobre flexibilidade e organize o dia para acompanhar de longe. A ideia não é se esforçar mais, e sim tirar das suas costas o que outra pessoa pode fazer. Vale também para quem cuida do pai, e para filhos e filhas.
Por que é tão difícil (e por que não é culpa sua)
Você não está sozinha nessa. Pela PNAD Contínua do IBGE, 5,1 milhões de brasileiros cuidavam de um morador da casa com 60 anos ou mais em 2019, contra 3,7 milhões em 2016. Um estudo do Cedeplar, centro de pesquisa da UFMG, usou a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 para olhar quem cuida de idoso e tem de 18 a 59 anos, a idade de quem trabalha: 60% são mulheres, com idade média de 40 anos.
Esse tempo sai de algum lugar. O mesmo estudo calculou que cada 10 horas a mais de cuidado por semana tiram, em média, cerca de 71 minutos de trabalho pago. É a saída mais cedo para a consulta, a ligação da farmácia no meio da reunião, a manhã perdida no pronto-socorro. Se isso descreve a sua semana, o problema não é falta de organização. É tarefa demais para uma pessoa só.
Passo 1: faça o mapa da semana
Antes de pedir ajuda, veja o tamanho do que você carrega. Durante uma semana, anote tudo o que você faz pela sua mãe: remédios, refeições, banho, consultas, exames, compras, contas, visitas, ligações. Depois, separe em três grupos:
- O que é seu e não muda: o que só você pode ou quer fazer. Por exemplo, ir à consulta com o geriatra ou o almoço de domingo com ela.
- O que pode ser dividido: irmãos, netos, tios e vizinhos podem comprar remédio, marcar exame, pagar contas ou fazer a visita de quarta. Quem mora longe também ajuda: agenda consultas, cuida dos papéis e liga para a mãe na hora do almoço.
- O que pode ser pago: uma cuidadora por algumas horas, a entrega da farmácia, uma faxina, o transporte para a consulta.
Um exemplo. Carla, 44 anos, trabalha das 9h às 18h. A mãe, de 79, mora a 15 minutos e toma remédio às 8h, às 14h e às 20h. Fazendo o mapa, Carla viu que da manhã e da noite ela dava conta. O buraco era o meio do dia: o remédio das 14h e o almoço. Ela contratou uma cuidadora das 11h às 17h, três vezes por semana. O irmão, que trabalha em casa, cobre os outros dois dias. E as consultas passaram a ficar numa mesma manhã do mês.
Para conversar com os irmãos sem virar briga, veja como dividir o cuidado dos pais entre irmãos.
Passo 2: converse com a chefia ou o RH
Muita gente esconde do trabalho que cuida de alguém, com medo de parecer menos comprometida. Só que o improviso (sair correndo, faltar sem avisar) costuma pegar pior do que uma conversa franca. Leve uma proposta pronta, com o que você precisa e como o trabalho continua sendo entregue:
- Horário flexível: entrar e sair mais cedo, ou mais tarde, conforme a rotina da sua mãe.
- Home office nos dias de consulta ou exame, mesmo que seja só meio período.
- Banco de horas para compensar as saídas.
- Um combinado para emergências: quem cobre você e como você avisa se precisar sair na hora.
Sobre o que a lei garante, é bom saber antes: a CLT não prevê falta abonada para acompanhar pai ou mãe ao médico. O artigo 473 lista situações como acompanhar filho de até 6 anos em consulta ou a esposa grávida em consultas e exames, mas não os pais. Então esse tempo depende de acordo com a empresa. O banco de horas pode ser combinado por acordo individual escrito, desde que a compensação aconteça em até seis meses (artigo 59). Pergunte ao RH ou ao sindicato se a convenção coletiva da sua categoria prevê algo a mais.
Um argumento que ajuda: desde dezembro de 2024, a Política Nacional de Cuidados (Lei 15.069) diz que o cuidado é responsabilidade compartilhada entre o Estado, as famílias, o setor privado e a sociedade civil, e prevê incentivar medidas que conciliem trabalho e cuidado. Ela não obriga a empresa a nada, mas mostra que o seu pedido não é um favor fora do comum.
Passo 3: busque ajuda paga e ajuda pública
Você não precisa de uma cuidadora 24 horas para começar. Muitas famílias contratam alguém só para as horas em que ninguém pode estar com o idoso. Antes de contratar, leia como contratar e acompanhar uma cuidadora de idoso.
Outras portas que vale conhecer:
- Centro-dia: o idoso passa o dia lá, com atividades e cuidados, e volta para casa à noite. Existem centros-dia particulares e, em algumas cidades, públicos. Pela assistência social, há um serviço para idosos com dependência e suas famílias que pode funcionar em casa, num centro-dia ou no CREAS, e um dos objetivos dele é diminuir a sobrecarga de quem cuida. O acesso segue critérios da assistência social, que costumam priorizar famílias em situação de vulnerabilidade. Pergunte no CRAS ou no CREAS da sua cidade.
- UBS (Unidade Básica de Saúde): conte à equipe que você trabalha fora e pergunte se dá para concentrar as consultas no mesmo dia, renovar receitas com antecedência e, se a sua mãe tiver dificuldade de sair de casa, receber a visita da equipe.
- Quando a dependência aumenta muito, pode ser hora de pensar em outro arranjo. Veja casa de repouso ou cuidador em casa: como decidir.
Passo 4: acompanhe de longe sem viver no telefone
Ligar de hora em hora cansa você e quem está com a sua mãe. Combine um jeito de acompanhar que caiba no expediente:
- Horários fixos de contato: uma ligação na hora do almoço e outra no fim do dia, por exemplo.
- Tudo num lugar só: a lista de remédios, os contatos dos médicos e o que cada um combinou, num caderno, num grupo ou num app que todos vejam.
- Registro do dia: quem está com ela anota o remédio dado, como foi a refeição e como ela está.
- O que é urgência, combinado antes: queda com dor ou sem conseguir levantar, falta de ar, dor no peito, confusão que aparece de repente. Nesses casos, quem estiver com ela liga primeiro para o 192 (SAMU) e depois para você. O resto pode esperar o fim do dia.
Na Lumya, a cuidadora registra o dia pelo WhatsApp, com o remédio dado, a foto do almoço e um áudio que vira texto, e você acompanha a agenda no app quando tiver um minuto. E você recebe um aviso quando algo sai do combinado: uma dose sem registro, o turno da cuidadora que não começou no horário, uma pressão fora da faixa.
Passo 5: cuide de você também
Quem trabalha e cuida costuma tirar o tempo de si mesma: o sono, a caminhada, a própria consulta. Não dá para manter isso por anos. Reserve um horário fixo que seja só seu, retome os exames atrasados e conte ao seu médico que você cuida de alguém. Se o cansaço não passa com o descanso, se a irritação e a tristeza viraram rotina, leia sobre a sobrecarga de quem cuida e procure ajuda na UBS ou com um psicólogo.
Dar conta não é fazer tudo. É montar uma rede em que cada um faz uma parte, para que você continue sendo filha ou filho, e não só a pessoa que resolve tudo.
Perguntas rápidas
A empresa é obrigada a me liberar para levar minha mãe ao médico?
Não pela CLT: o artigo 473 não inclui acompanhar pai ou mãe em consulta. Vale negociar com a empresa e conferir o que diz a convenção coletiva da sua categoria.
Preciso de uma cuidadora o dia inteiro?
Nem sempre. Muitas famílias começam com alguém só nas horas em que ninguém pode ficar com o idoso e ajustam conforme a necessidade muda.
Como acompanhar a rotina da minha mãe durante o expediente?
Combine horários fixos de contato e um lugar único onde quem está com ela anota remédios, refeições e como ela está. A ligação fora de hora fica para o que foge do combinado.
O que é centro-dia para idoso?
É um lugar onde o idoso passa o dia, com atividades e cuidados, e volta para casa à noite. Há opções particulares e, em algumas cidades, públicas, pela assistência social (pergunte no CRAS ou no CREAS).
Devo largar o emprego para cuidar da minha mãe?
Antes de decidir, teste por algumas semanas a flexibilidade no trabalho, a divisão com a família e a ajuda paga. Sair do emprego reduz a renda e nem sempre é fácil voltar.
Fontes consultadas
- Com envelhecimento, cresce número de familiares que cuidam de idosos no país (PNAD Contínua 2019, Outras formas de trabalho) — IBGE — Agência de Notícias
- Cuidado não remunerado de idosos e oferta de trabalho no Brasil, com dados da PNS 2019 (Padilha, Machado e Corseuil — Seminário de Diamantina, 2024) — Cedeplar/UFMG
- Decreto-Lei nº 5.452/1943 — Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), texto compilado: arts. 59 e 473 — Planalto — Presidência da República
- Lei nº 15.069, de 23 de dezembro de 2024 — Política Nacional de Cuidados — Câmara dos Deputados — Legislação
- Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais (Resolução CNAS nº 109/2009, reimpressão 2014) — Serviço de Proteção Social Especial para Pessoas com Deficiência, Idosas e suas Famílias — Ministério do Desenvolvimento Social
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de médicos e outros profissionais de saúde. Em uma emergência, ligue 192 (SAMU).