Saúde da mulher · 5 min de leitura · Atualizado em 20 de outubro de 2026
Reposição hormonal na menopausa: o que mudou e o que perguntar
Uma onda de calor no meio da reunião. O lençol molhado às três da manhã. E, quando alguém fala em reposição hormonal, volta a pergunta que muitas mulheres aprenderam a fazer: "mas isso não dá câncer?"
Essa pergunta tem história, e boa parte dela foi revista. Veja o que a ciência sabe hoje, o que mudou e o que perguntar ao ginecologista.
Quando a terapia hormonal é indicada
No Brasil, a menopausa chega por volta dos 48 anos. É a idade mediana do Brazilian Menopause Study (revista Climacteric, 2022), com 1.500 mulheres de 45 a 65 anos. Quase nove em cada dez tinham algum sintoma do climatério, mas, entre as que estavam na transição ou já na menopausa, só 22,3% receberam indicação de terapia hormonal.
Os sintomas mais comuns são fogachos (ondas de calor), suor noturno, sono picado, oscilação de humor e ressecamento vaginal. Segundo a The Menopause Society, sociedade norte-americana de referência, a terapia hormonal segue sendo o tratamento mais eficaz para fogachos e sintomas genitais e urinários, e ainda previne a perda óssea. É indicada para sintomas que atrapalham a vida, não para "segurar o envelhecimento".
A história do medo
Em 2002, o estudo americano Women's Health Initiative (WHI) foi interrompido antes do previsto. Mais de 16 mil mulheres de 50 a 79 anos tomaram estrogênio com progestagênio, em comprimido, ou placebo. A cada 10 mil mulheres tratadas por um ano, houve 8 casos a mais de câncer de mama, 8 de AVC, 8 de embolia pulmonar e 7 de eventos do coração, e também 6 casos a menos de câncer de intestino e 5 fraturas de quadril a menos.
A releitura veio depois. Muitas participantes já estavam a mais de dez anos da menopausa. Uma análise de 2007 na revista JAMA sugeriu que o risco cardíaco dependia de quando a mulher começava: com menos de 10 anos de menopausa, ele não aumentou. O risco de AVC, porém, subiu em todas as idades.
Daí veio a ideia da "janela de oportunidade". Na posição de 2022, a The Menopause Society reafirma que, para mulheres sem contraindicação, com menos de 60 anos ou até 10 anos da menopausa, os benefícios superam os riscos no tratamento de fogachos que incomodam e na prevenção da perda óssea. Um limite: o WHI testou um só tipo de estrogênio e de progestagênio, em comprimido, e muito do que se sabe das formulações atuais vem de estudos observacionais.
O que mudou em 2025 e 2026
Em novembro de 2025, a FDA, agência de medicamentos dos Estados Unidos, anunciou que tiraria da tarja preta (o alerta de maior destaque da bula americana) as menções a doença cardiovascular, câncer de mama e provável demência. Em fevereiro de 2026, aprovou as seis primeiras bulas revisadas. Os riscos seguem descritos, só que fora do destaque. Para o estrogênio usado sozinho, o alerta de câncer de endométrio continua: por isso, quem tem útero costuma receber também um progestagênio, que protege essa camada.
A mudança vale para os Estados Unidos. Até aqui, não encontramos anúncio da Anvisa mudando as bulas brasileiras.
Quem não pode, vias e riscos
As principais contraindicações são:
- câncer de mama ou de endométrio, atual ou passado;
- trombose ou embolia pulmonar;
- AVC ou infarto;
- sangramento vaginal sem explicação, que precisa ser investigado antes;
- doença do fígado em atividade.
O estrogênio pode ser tomado em comprimido ou aplicado na pele, em gel ou adesivo (via transdérmica). Num grande estudo britânico publicado no BMJ em 2019, o comprimido foi associado a mais trombose venosa, e a via transdérmica não.
Para ressecamento e ardência, o estrogênio vaginal em dose baixa age no local e, segundo a The Menopause Society, pode ser usado em qualquer idade. Veja também incontinência urinária na mulher não é normal.
Alternativas sem hormônio
A posição de 2023 da The Menopause Society reconhece evidência para terapia cognitivo-comportamental, hipnose clínica, alguns antidepressivos, gabapentina e fezolinetanto. Este último age no controle cerebral da temperatura, teve registro aprovado pela Anvisa em junho de 2026 e, nos Estados Unidos, exige exames de fígado antes e durante o uso. Suplementos, fitoterápicos e soja não são recomendados para fogachos, por falta de evidência consistente.
Cuidado com hormônios "bioidênticos" manipulados. Estradiol e progesterona registrados também são bioidênticos; o problema é a versão manipulada, com pouca fiscalização, dose imprecisa e quase nenhum estudo. Em 2024, a Anvisa proibiu os implantes hormonais manipulados, os "chips da beleza", para fins estéticos, ganho de massa e desempenho, além da propaganda. O CFM apoiou a decisão; sua Resolução 2.333/2023 já vetava prescrever anabolizantes com finalidade estética.
Perguntas para levar ao ginecologista
- Meus sintomas justificam tratamento? Estou dentro da janela de início?
- Tenho alguma contraindicação? Que exames fazer antes?
- Comprimido, gel ou adesivo: qual via é mais segura para mim?
- Vou precisar de progestagênio? E se tiver sangramento?
- Por quanto tempo vou usar, e quando reavaliamos?
- Se eu não puder ou não quiser hormônio, que alternativas servem para mim?
Para organizar a ida ao médico, leia o que levar para a consulta médica.
Como a Lumya ajuda
No modo autocuidado, você registra em segundos sintomas rápidos, sono e humor; com sua autorização, o app lê o sono do Apple Saúde ou do Health Connect. Leve esse histórico à consulta. Se começar um tratamento, os alertas de horário lembram o remédio. A Lumya não diagnostica nem substitui o médico.
A menopausa não é doença, nem precisa ser aguentada calada. Você merece uma conversa franca, com riscos e benefícios na mesa, e uma decisão que faça sentido para a sua vida.
Fontes consultadas
- The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society (Menopause, 2022) — The Menopause Society / PubMed
- Risks and benefits of estrogen plus progestin in healthy postmenopausal women: principal results from the Women's Health Initiative (JAMA, 2002) — JAMA / PubMed
- Profile of Brazilian climacteric women: results from the Brazilian Menopause Study (Pompei et al., Climacteric, 2022) — Climacteric / PubMed
- FDA Approves Labeling Changes to Menopausal Hormone Therapy Products (12/02/2026) — U.S. Food and Drug Administration
- The 2023 nonhormone therapy position statement of The North American Menopause Society (Menopause, 2023) — The Menopause Society / PubMed
- CFM debate proibição do 'chip da beleza' no plenário do Senado e elogia nova medida da Anvisa (22/11/2024) — Conselho Federal de Medicina
- Anvisa aprova novo medicamento sem hormônios para aliviar sintomas da menopausa — Conselho Federal de Farmácia (CFF)
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de médicos e outros profissionais de saúde. Em uma emergência, ligue 192 (SAMU).